sexta-feira, 9 de março de 2012

Falta

Coisa estranha é ter saudades de alguém que se vê todos os dias, a simples presença não satisfaz.
É que falta aquela voz altiva, determinada e certa. Falta também o barulho das chaves a balançar enquanto anda.
Onde está o violão a dedilhar? E o doce de goiaba com farinha de milho e leite?
Faltam petições a serem corrigidas - insistentes nos erros de sempre.
Coisa estranha é levar e trazer um pai que não mais o meu pai Carlos Celso.
É que falta aquela vaidade, aquele sorriso de orgulho da filha.
Eu estranho conversar com este frágil pai. Faltam os conselhos, a posição firme de quem sustenta a tese mesmo que errada até o fim.
Faltam as brigas e as pazes.
Que falta eu sinto da poesia feita no berçário do hospital para meus primeiros filhos, carregadas de emoção, mas que não está no álbum dos meus dois últimos.
Sinto tanta falta daquele carinho desajeitado, da sua maneira torta de gostar.
Nunca pensei que um dia eu sentiria falta dos teus defeitos que tanto me incomodavam. Mas nem eles estão mais lá.
Que saudades, pai, da tua presença verdadeira e inteira.

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